Querer o possível
Em estado de apaixonamento, a melhor conduta é sentar e esperar passar. Tentar se mover o mínimo possível. Hibernar, talvez. Dormir e acordar só quando já tiver passado.
Uma vida inteira sem saber interpretar sinais. Não percebo ironia fina, demoro pra entender piadas, não tenho capacidade pra captar entrelinhas. Mas apenas recentemente me dei conta de que isso pode ser um problema, porque as pessoas estão tentando se comunicar comigo e eu não noto. Eu sequer percebia que certas coisas eram “sinais”, que dirá conseguir interpretar. A quantidade de incômodos que poderiam ter sido evitados na minha vida se eu tivesse me dado conta disso antes. Mas ei, ter me dado conta não fez com que magicamente eu começasse a captar/entender/saber interpretar. Ultimamente tenho pedido pras pessoas: por favor, seja direto. Se você estiver tentando paquerar comigo ou querendo me dar um fora, eu não vou entender — a menos que você seja bem literal.
É um inferno, porque as pessoas têm muita dificuldade para serem diretas. Até no trabalho é assim. Não sei se é um traço cultural do brasileiro, tem receio de magoar, fica dourando a pílula. Mas no campo amoroso é pior ainda. É todo mundo cheio de códigos e sinais ambíguos. Custa dizer claramente se quer ou não quer? Como falam os manézinhos, “si quéx, quéx, si não quéx, dix”.
Mas é isso, às vezes a pessoa tá “dizendo” e eu que não tô entendendo. É por isso que volta e meia tenho que fazer um jogo de tarô. Preciso de um intérprete de sinais. Eu sou muito tapada. Às vezes os sinais são tão inequívocos, qualquer pessoa com a cognição em dia ia dizer “vaza, nega”, mas eu continuo mandando figurinha no whatsapp. E esperando resposta. E é aí que nos aproximamos do território da burrice mesmo.
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Eu li um livro que se chama The End of Romance. A protagonista passa dez anos numa relação com um homem controlador, que é o primeiro namoradinho dela, e quando consegue se livrar desenvolve toda uma teoria — ela estuda filosofia — sobre como o romance tem que acabar. Decide que não vai se envolver emocionalmente com ninguém, e pra que isso dê certo determina que não vai dormir com alguém mais de uma vez. Daí aparece um homem que ela gosta e começam um relacionamento. O cara é um doce e aceita todas as exigências da teoria dela: que o relacionamento seja não-monogâmico, que fique na esfera privada, não seja público. Ela não quer o papel de namorada de alguém, então os amigos dele não conhecem ela e a única amiga dela é apresentada para ele depois de muito tempo, assim como a família dele (ele não é nem mencionado para a família dela, de quem ela é distante). Ela não quer casar nunca mais na vida, e recusa a domesticidade. Ela aplica ao relacionamento, testa com esse cara, as teorias que está desenvolvendo na sua tese sobre o fim do romance, e parece que funciona.
O problema é que ela baseia a teoria nesse primeiro relacionamento que teve na vida — mas como julgar todos os relacionamentos com base em apenas um? O único? O primeiro? O da juventude? Pode ser diferente com outra pessoa, né? “Os homens não são todos iguais” — diz Robbie, o namoradinho santo — “eu não sou o Jonah”. Parecido comigo quando terminei meu último namoro e decretei que nunca mais ia namorar, namoros não prestam, relacionamentos não funcionam pra mim, não quero um namorado nunca mais. Tá certo que não era o primeiro e muito menos foi o único, a deusa sabe o quanto eu já tentei, minha amostra tem bem mais relevância estatística — mas quem sabe eu queira namorar, sim, só não com aquele homem específico?
Outro problema é que não tem como controlar sentimento. Ela vive na mente, nas ideias, mas o corpo e o coração não respondem a essa agenda teórica que ela inventou. Então, bem, ela tá lá vivendo esse relacionamento extremamente independente com o santo que concorda com tudo que ela determina, e aí um dia ela se apaixona por outro, um que quer casar, fazer casa nela, enraizar. E que não quer praticar a não-monogamia nem fudendo. Ela tem que escolher. O que ela faz? Se muda pra casa desse cara sem contar para o outro, vive durante a semana na casa de um e no final de semana na casa do outro (em outra cidade), e fica assim por meses, e vendo sua tese, a que está escrevendo e vai defender, sendo desmontada pouco a pouco, pois o que ela está sentindo não cabe na teoria.
Ou seja, é uma tonta.
O livro acaba (atenção, spoiler) (como seu eu já não tivesse spoileado o livro todo haha) com ela rompendo com o santo que aguentou as regras e batendo na porta do que ofereceu domesticidade e disse que era “ou eu ou ele”.
Adeus teorias.
Eu fiquei decepcionadíssima com ela. O livro todo cheio de ideias lindas sobre como relações podem ser diferentes da norma, pra acabar como um conto de fadas, a princesa casando com o lindo príncipe que vai protege-la de todos os males? Ah, faça-me o favor.
Óbvio que eu me identifiquei com essa tonta, especialmente no não querer ser “mulher de” alguém, manter a independência, recusar a domesticidade. Eu tenho todas essas ideias sobre como vai ser uma relação, eu quero amizadeS coloridas, não quero um macho morando na minha casa, me dá arrepios ouvir alguém se referir a mim como “minha mulher”, saio com a pessoa e fico olhando pros lados, aquele monte de gente bonita e eu aqui com o braço desse homem pesando nos meus ombros indicando posse, credo que agonia.
Expectativa:
Veja bem, não é maldade
É que tem tanta gente linda na cidade
E eu tô na flor da idade (hahaha)
Melhor se arrepender do que passar vontade
Eu espero que você entenda
Que o meu amor é amor de quenga
Eu não quero que você se prenda
No meu amor, amor de quenga
Realidade:
eu me apaixono e viro monogâmica imediatamente. domesticidade, venha.
porém eu tenho um problema sério de não conseguir permanecer em relações possíveis, e uma tendência patológica a me apaixonar por gente indisponível, qualquer tipo de indisponibilidade serve.
Entre eu e o amor possível rola um feitiço de Áquila. Nunca estamos no mesmo lugar. Por que será, né.
Você tem tanto medo do que deseja. Tanto medo — e, ainda assim, não consegue dizer não a si mesma. Viver com você é como assistir a um cabo de guerra sem fim, jogado por uma única pessoa. Eu costumava achar que podia te libertar disso. Achei que a culpa era do seu ex e que, se você passasse tempo suficiente comigo, acabaria entendendo que querer as coisas é normal — e que não consegui-las também faz parte. Mas não era culpa dele, era? É simplesmente quem você é.
Robbie diz para Sylvie na conversa do rompimento. tradução do Chat GPT
O Instagram captou que eu tava vivendo uma “situationship” (na minha cabeça, sozinha) e o algoritmo começou a me mandar um monte de conteúdos de mulheres dando a real. Apareceu um reels de duas amigas conversando, a amiga dizendo pra outra que o cara que não tinha respondido mensagem há cinco dias podia ter respondido até enquanto tava cagando, se quisesse, e mostrou dois bolinhos: esse aqui é o que tu não pode mudar (“ai, mas eu queria que ele estivesse interessado em mim”). E este outro aqui é o que tu pode mudar, porque são as coisas sobre as quais tu tem escolha, tu que decide. Por exemplo, largar de mão o que não corresponde. Vazar, nega.
Porque, é óbvio, ficar insistindo no indisponível é procrastinar a possibilidade de viver uma relação real, que não tá pronta, que exige trabalho, que pode não dar “certo”, que pode doer.
Temos medo. Mas queremos mudar? Queremos mudar. Eu quero querer o possível.
Assuntos aleatórios mas nem tanto
Uma linda e trágica história de amor que conta também sobre os horrores do colonialismo no México. Por Jeanine Kitchel.
O amor pelos animais que compartilham a vida com a gente e a dor quando eles se vão. A matéria, o desejo, o amor como estado biológico. Por Bruna Buch.
Sylvie saiu pela vida abandonando amigas por se distrair demais com os homens. Celeste Davis talvez dissesse que faltou, na teoria de Sylvie, o investimento em laços comunitários.
Agora sim assuntos aleatórios
Homens são insuportáveis dentro d'água. E não sou nem eu que tô dizendo.
Aqui a teoria dos bolinhos. Eu fico um pouco envergonhada de consumir sabedoria de rede social, mas esse negócio foi bem útil pra mim.
Esses dias o algoritmo me mostrou uma influenciadora 50+, não guardei o nome, mostrando todas as coisas que a sociedade diz que mulheres 50+ não deveriam fazer: usar biquini, usar cropped, usar mini saia, etc, não sei mais o que pois fechei a janela, e ela fazendo tudo isso e sendo linda. Eu sei que ela tá falando para uma audiência de mulheres que talvez estejam descobrindo lentamente que envelhecer pode ser diferente, mas de certa maneira eu acho que isso só dá permanência a coisas que não fazem mais sentido. Não tem nem que ficar debatendo. Aquela velhice lá, em que virávamos senhorinhas e não vestíamos mais roupa “de jovem”, passou, acabou, não existe mais. Segue o baile. Novos assuntos, porfa. Jamais me passou pela cabeça não usar cropped por causa da idade (mas também pode ser por que a pessoa aqui tem disforia etária, não se vê na idade que tem, esse texto aí em cima é a prova disso, hahaha).



ahh ale como eu amo ler você! Somos todas parecidas nesse quesito de lidar com homens. Como a Ludmila, tbm sou mestra em procurar cabelo em ovo e criar teorias completamente infundadas.
Adorei o desabafo, Alê. Já eu, fico procurando cabelo em ovo, vejo sinais em tudo e sempre interpreto de forma negativa. um horror!